Há algum tempo que queria voltar a ter o atelier numa loja de rua. Não apenas um espaço de trabalho, mas um lugar onde as pessoas pudessem entrar, conversar e descobrir peças para levar imediatamente para casa.
Quando estava em Paris, na Maison & Objet, à procura de peças para outra loja, a minha tia repetia a mesma frase em quase todos os stands onde entrávamos: “Tens mesmo de abrir uma loja em Lisboa.” Noutros dizia: “Se já tivesses a tua loja, levávamos estas peças.” E eu respondia sempre o mesmo: “Sim… assim que chegar vou começar a procurar a sério.” Enquanto isso, ia pensando: Preciso mesmo de encontrar um espaço.

Mas nem precisei de me esforçar muito. Parecia que o universo nos tinha ouvido durante toda a viagem. Assim que cheguei de Paris, enquanto estacionava o carro perto de casa, dei de caras com uma loja para arrendar.
O espaço não era enorme, percebi imediatamente que aquilo nunca poderia ser uma loja tradicional, mas dava perfeitamente para ter o atelier e vender algumas peças…. e melhor que tudo, era mesmo ao pé de casa e podia ir a pé. Mas se não era uma loja, porque não tinha dimensão para isso, e também não era apenas um atelier, porque vendia peças… então o que era?
Foi exatamente dessa pergunta que nasceu o nome Gabinete de Curadoria.
Assim que entrei no espaço percebi que conseguia encaixar tudo. Era pequeno, mas muito fácil de organizar… e, se há coisa que sei fazer bem, é trabalhar espaços pequenos.
A minha mãe sempre disse que eu conseguia fazer a multiplicação do espaço… e é verdade. Gosto de olhar para um espaço e encontrar soluções que fazem parecer que ele é maior do que realmente é.
Ainda nem tinha chegado a casa e já tinha o layout completamente desenhado na minha cabeça. Liguei logo ao senhorio e, nessa mesma semana, ainda sem saber se ia conseguir ficar com o espaço, já lá estava eu de fita métrica na mão a tirar medidas, apesar de a arrendatária anterior ainda nem ter retirado as suas coisas. Quando cheguei a casa fiz o layout.
No dia seguinte já não estava a pensar onde ia ficar a secretária. A grande dúvida era outra, prateleiras ou uma estante?
As prateleiras ganharam. Eram uma solução mais leve, não criavam barreiras visuais para quem espreitava pela montra e deixavam as peças respirar. Era exatamente isso que eu queria.

Depois começaram as escolhas dos revestimentos. Queria um espaço acolhedor e, para mim, há poucas coisas que transformam um espaço tão depressa como um papel de parede. Escolhi um papel de parede em linho creme muito claro para servir de base às prateleiras em tom taupe.
Mas também queria que a zona do atelier tivesse uma identidade própria.
Lembrei-me de uma imagem que tinha guardada há muito tempo. Era uma casa de banho tipo hollywood Regency com influência Art Déco, com papel de parede às riscas pretas e brancas e um lavatório preto. Não tinha absolutamente nada a ver com um atelier… mas tinha exatamente a atmosfera que eu procurava.
É curioso como funciona a nossa memória. Vemos milhares de imagens ao longo da vida e, de repente, anos mais tarde, uma delas reaparece para inspirar um espaço completamente diferente.

O maior desafio acabou por ser a obra.
Sabia que, quando retirasse o revestimento em madeira que cobria todas as paredes, ia encontrar algumas surpresas. O que não imaginava era descobrir paredes completamente cheias de humidade.

Aquilo que parecia uma simples pintura transformou-se na necessidade de criar uma caixa de ar para resolver o problema.
É o lado menos romântico das obras. Quando começamos a abrir paredes, nunca sabemos verdadeiramente o que está por trás.

Resolvida a humidade, voltou a parte de que mais gosto, pensar na organização. Onde guardar os catálogos de trabalho? Onde ficam as amostras de materiais? Como esconder os arrumos por cima da porta e das montras? Como fazer caber tudo sem que o espaço parecesse cheio?
Depois vieram as escolhas finais. Dois tipos de cortinas diferentes para as duas montras. Um pavimento clássico, porque não queria a tábua corrida que hoje parece existir em todo o lado. Optei por vinílico, pela resistência e pela tranquilidade que me dará no futuro.
Do dia 30 de janeiro ao dia 19 de Março fez-se muito. Nasceu o conceito, nasceu o layout e a obra transformou completamente o espaço. Mas havia uma coisa que continuava a não fazer sentido. Ter o Gabinete de Curadoria pronto e mantê-lo fechado porque ainda não existiam as peças certas para o abrir.

Foi aí que comecei a fazer curadoria com aquilo que já tinha. Havia várias peças na outra loja e percebi que não fazia sentido abrir este espaço apenas como atelier. Bastava escolher aquelas que realmente pertenciam ali.
Eram as peças ideais? Não.
Mas o caminho faz-se caminhando.
Vieram primeiro as que faziam sentido. Depois começaram a chegar outras. E é assim que o Gabinete de Curadoria continua a crescer. Não de uma vez só, mas peça a peça, sempre com o mesmo critério.
Hoje ainda existe um pequeno cruzamento entre o que veio do passado e aquilo que já foi escolhido especificamente para este espaço. Mas isso também faz parte da história do Gabinete de Curadoria. Cresceu exatamente como eu queria que crescesse, sem pressa, peça a peça, sempre com o mesmo critério. Porque a curadoria nunca se faz num dia. Faz-se ao longo do tempo.

