Na véspera de abrir as portas do Gabinete de Curadoria fui ao lançamento do livro Marie Antoinette, da Diana de Cadaval, no atelier da Joana Vasconcelos.
Ainda nem o comecei a ler, mas estou ansiosa por o fazer. Talvez porque, durante toda a apresentação, senti que estava a regressar a um universo que me acompanha há muitos anos… Versailles.
Quando cheguei a Paris pela primeira vez tinha apenas quinze anos. Lembro-me perfeitamente de duas coisas.
A primeira foi o tamanho da Torre Eiffel. Era um monumento que via desde pequena em livros, revistas e na televisão. Fazia parte do meu imaginário, mas nunca imaginei que pudesse ser tão gigantesco.
A segunda foi Versailles. Na altura não sabia explicar porquê. Apenas sabia que aquele lugar me fascinava.
Anos mais tarde, na faculdade, já não era apenas Paris. Vieram as aulas de História do Mobiliário com a professora Fernanda Pinto Basto, provavelmente a professora que mais me marcou durante o curso. Durante dois anos mergulhámos nos séculos XVII e XVIII franceses. Já não olhava apenas para os dourados ou para os espelhos. Passei a olhar para a corte francesa, para a arquitetura, para o mobiliário, para a decoração e para todas as histórias escondidas por detrás daqueles espaços.
Foi aí que Versailles deixou de ser apenas um palácio bonito. Passou a fazer parte da minha cultura visual.
Curiosamente, entre os quinze e os quarenta e oito anos nunca mais lá voltei. Passei dezenas de vezes por Paris, mas Versailles ficava sempre para outra viagem. Ainda assim, nunca deixou verdadeiramente de fazer parte da minha vida e no início deste ano regressei finalmente a Versailles. Mas desta vez aguardava um programa com enorme expectativa… um brunch no hotel do Palácio de Versailles, o Le Grand Contrôle… e voltei a achar tudo maravilhoso.
O hotel está simplesmente fabuloso e logo à chegada, o porteiro abriu a porta do táxi, trajado a rigor como no século XVIII… foi o primeiro wow do dia! Sabia que o espaço estava à época, mas não contava que todos os funcionários estivessem assim vestidos.
Os interiores são uma verdadeira aula de História do Mobiliário. Tudo parece ter sido pensado ao mais ínfimo detalhe. Na receção, os típicos macarons em tons pastel pareciam fazer parte da decoração, como se Marie Antoinette os tivesse acabado de encomendar.

Da receção passávamos naturalmente para a primeira sala. Depois outra. E outra. Era impossível não reparar nos tecidos, nas almofadas com passamanaria, nas cortinas com machos e embraces, nas molduras em tecido que envolviam os espelhos. Durante todo o tempo até me sentar para o brunch fiz aquilo que faço sempre… fotografava um pormenor, sentava-me, levantava-me outra vez porque entretanto tinha descoberto outro.

O brunch é fabuloso, uma sucessão interminável de pratos e não fossem as porções generosas, quase que se podia dizer que era uma degustação de pratos típicos franceses… mas não, é impossível comer tudo.

De seguida fui para o palácio pela passagem privada do hotel e achei o máximo! O hotel ocupa a antiga Casa dos Hóspedes e o edifício do antigo Controlo Geral das Finanças, por onde passavam os convidados da corte quando iam aos bailes. Revivi todas as memórias que tinha do palácio… e continuo a achar tudo fabuloso!
Enquanto passava pelos corredores conseguia imaginar Marie Antoinette a percorrer aqueles mesmos espaços.
Fiquei pela ala do Rei e ainda consegui uma fotografia que acabou por se transformar num quadro em minha casa
Se para cima foi só subir a escadaria, para voltar para o hotel não encontrava a entrada. Vi uma obra com luz e entrei para ver se encontrava alguém para ajudar… mas encontrei algo ainda melhor. Era a obra de ampliação da nova ala do hotel e, mesmo por acabar, já era incrível. Ainda estava longe de ser o espaço que penso encontrar numa próxima visita, mas tinha as plantas nas paredes e isso foi uma coisa de outro mundo, enquanto passava de sala em sala observava as plantas, a disposição do mobiliário e como iria ficar o layout de cada uma delas.
Não estava apenas a ver uma obra. Estava a perceber como um hotel desta dimensão pensa os percursos e a organização dos espaços antes de tudo existir. Se isto não é equivalente a encontrar água no deserto, não sei o que será!
A minha tia só dizia, Rita… olha que não podemos estar aqui, e eu só respondia, eu sei, eu sei e enquanto olhava para tudo.
Assim que saí da obra deparei-me com dois vasos de flores, enormes, a ladear uma porta… mais evidente era impossível, mas juro que não a tinha visto, e o facto de não a ter visto levou-me a esta obra quase como um presente do Rei Sol… o responsável pela minha paixão por Versailles.
Enquanto vivia tudo isto, dei por mim a pensar muitas vezes na professora Fernanda. Perguntava-me como estaria. Foi uma das pessoas que mais influenciou a forma como hoje olho para um interior, e ainda hoje dou por mim a dizer uma expressão que lhe ouvi centenas de vezes nas aulas… ‘amo de paixão’. Há expressões que acabam por fazer parte da nossa maneira de falar sem sequer percebermos quando começaram.
Anos depois voltámo-nos a encontrar por acaso nas Amoreiras. Acabámos sentadas à mesa de um restaurante e começámos a conversa da forma mais portuguesa possível.
Como está? Tudo ótimo… dissemos as duas. A verdade é que não estava… nem para uma, nem para a outra. Passámos horas a trocar preocupações, a rir das nossas desgraças e, no fim, ainda nos rimos do primeiro “está tudo ótimo” com que tínhamos começado o almoço.
Em Janeiro volto novamente a Versailles. Desta vez para ver a exposição dos figurinos criados para o filme Marie Antoinette, de Sofia Coppola.
Gostava de ter a oportunidade de passar quinze dias naquele palácio… para o perceber, entrar nas salas privadas que normalmente não estão abertas ao público, observar os pormenores, descobrir como cada espaço se relaciona com o seguinte e continuar a descobrir tudo aquilo que me fez apaixonar por Versailles há mais de trinta anos.
Talvez seja por isso que ainda nem comecei a ler o livro da Diana de Cadaval… porque já sei que, quando o fechar, vou querer voltar a Versailles.
