Há espaços que nos vão encantando à medida que os descobrimos… e o La Mamounia é um deles.
A maioria dos hotéis tenta impressionar-nos logo à chegada. Mostram tudo o que têm nos primeiros minutos, quase como quem quer garantir que percebemos imediatamente onde estamos.

O La Mamounia faz precisamente o contrário… vai-se revelando aos poucos, deixando-nos saborear cada momento.

Ainda antes de chegarmos ao edifício principal começamos a perceber que este não vai ser um hotel como os outros. Entramos pelo portão do La Mamounia e somos conduzidos pelos jardins, onde os azulejos verdes aparecem discretamente entre a vegetação e as lanternas vermelhas anunciam aquilo que está para vir. Só depois, ainda antes de atravessarmos a pequena estrada, surge finalmente o edifício principal. É quase uma preparação em camadas… como se o hotel não quisesse revelar-se todo de uma vez.

Quando finalmente chegamos à fachada do hotel, entramos… e é impossível ficar indiferente.

O pavimento de mármore conduz imediatamente o olhar até à enorme escultura de luz ao fundo, não porque seja exuberante, mas porque parece fazer parte daquele espaço desde sempre.

Começamos a descobrir as diferentes salas espalhadas pelo lobby, cada uma com a sua personalidade. Logo a seguir à receção encontramos uma zona de estar que faz lembrar as tradicionais salas árabes, num tecido vermelho escuro, onde todos se sentam à volta de uma mesa e onde nos pedem para aguardar enquanto nos trazem um chá. É dali que começamos verdadeiramente a descobrir a escultura de luz e todos os seus pormenores.

Não há vontade de atravessar aquele espaço depressa; há vontade de parar, sentar, observar e perceber as passagens de um espaço para o outro, espreitar os restaurantes e as lojas que vão surgindo pelo caminho.

Especialmente no bar, há uma linguagem Art Déco muito evidente que convive de uma forma tão natural com toda a linguagem marroquina, que parece impossível imaginar uma sem a outra.

Quando chegamos à porta do quarto, somos novamente surpreendidos pela sinalética. A placa com o número do quarto apetece logo trazer para casa. É uma peça trabalhada, iluminada por trás, desenhada com o mesmo cuidado que encontramos em todos os outros pormenores.

Ao entrar, uma sucessão de portas em madeira vai criando pequenas antecâmaras antes de chegarmos ao quarto propriamente dito, como se cada divisão preparasse a seguinte e tornasse a zona de descanso ainda mais privada. São estes pequenos momentos que fazem toda a diferença… aqueles por onde quase toda a gente passa e eu paro.

Mas há um pormenor a que ninguém fica indiferente… os aquecedores dos quartos.
Se por cá passamos a vida a tentar escondê-los porque, convenhamos, são um horror, no La Mamounia encontramos autênticas peças de decoração. Uns aquecedores maravilhosos, em bronze escuro, todos trabalhados ao pormenor, como se fossem pequenas esculturas. E nessa altura pensei… como é que se consegue importar isto?

Mas foi no último dia que aconteceu aquilo que mais me fez pensar.

Enquanto aproveitava a piscina, fui às casas de banho. Não esperava encontrar mais do que um espaço bonito, funcional… aquilo que esperamos de umas casas de banho de piscina.

Mas bastou ver a fachada daquele espaço para voltar a ser surpreendida.
Amei tudo. Fotografei de todos os ângulos possíveis e, defeito de profissão, comecei imediatamente a tentar perceber as camadas por trás daquele espaço… como é que tudo aquilo se construía, porque é que resultava tão bem.

Foi então que comecei a olhar com mais atenção para as paredes de azulejo… e a primeira reação foi imediata.

“Credo! Isto é um hotel de cinco estrelas… se me entregassem isto assim numa obra… matava-os.”

Na minha cabeça, aquilo era um trabalho muito mal acabado. As juntas eram completamente irregulares, havia alinhamentos que, numa obra minha, jamais seriam aceites.

Mas bastaram alguns segundos para começar a imaginar aquela mesma parede perfeita, rigorosamente alinhada, com todas as juntas iguais… e perceber que talvez perdesse a graça.
Foi aí que percebi que aquelas pequenas imperfeições não eram um problema para resolver… pelo contrário, corrigi-las era quase como tirar a alma daquele espaço.

Saí dali a pensar que, apesar de continuar a ser a Maria dos Alinhamentos, às vezes a diferença entre um espaço bonito e um espaço inesquecível está precisamente naquilo que, à primeira vista, temos vontade de corrigir.

Talvez seja por isso que, quando me perguntam se voltava…
A resposta é sempre a mesma.

Já!

Para conhecer outro quarto, para passar mais uma tarde na piscina, para jantar nos outros restaurantes ou simplesmente para voltar a percorrer aquelas salas e descobrir mais um pormenor que, certamente, me escapou da última vez.

Porque há espaços que nos mostram tudo à chegada… e outros que nos obrigam a voltar.

O La Mamounia é um deles.