
… e aquilo que era para ser apenas um relógio para um tablier virou todo um conceito para a reinterpretação do clássico Porsche 911 da geração 964.
Já se sabe que as ideias são como as cerejas e atrás de uma vem outra e outra de seguida e, quando deram por isso… estavam a projectar um carro e depois… cerejas! Veio outro.
Esta semana, a Singer Vehicle Design reinterpretou dois Porsche 911 em colaboração com a Louis Vuitton e até o modelo que parecia ser óbvio é genial.
O óbvio, que de óbvio não tem nada, é o Porsche 911 Reimagined by Singer – Classic. É claramente uma adaptação da marca ao carro, quase como se um 911 se tivesse despistado, entrado montra adentro e fosse parar dentro de um saco da Louis Vuitton, absorvendo miraculosamente as suas cores.
Com inspiração cromática nos famosos sacos Louis Vuitton, pormenores em pele e a adaptação da flor como respirador, o 911 não para de surpreender. É quase um projecto de interiores pensado para o ramo automóvel.
E até uns simples pneus, no azul-cobalto das pegas e fitas das embalagens Louis Vuitton, apesar de aparentemente serem óbvios, não o são, porque os pneus sempre foram e sempre serão pretos e pneus azuis jamais serão óbvios!
Ou será que se abriu uma porta aos pneus coloridos?

A pele inspirada na VVT leather, o malletage dos bancos, as monogram flowers transformadas em perfurações de ventilação, os puxadores trabalhados com técnicas vindas da marroquinaria, os metais tratados quase como peças de relojoaria e, felizmente, a eliminação dos componentes de plástico visíveis tão típicos do interior de um automóvel. Depois, todo o universo Tambour transportado para os instrumentos… e o vidro está genial!

Na parte superior, o monogram aparece espalhado sobre o vidro, num jogo gráfico que a Louis Vuitton já tinha levado às lentes dos LV Pilot Light. Mais uma vez, uma referência da marca transportada para um sítio onde não estávamos habituados a vê-la.
E o tejadilho… que maravilha! Recebeu uma estrutura específica capaz de transportar um baú Louis Vuitton, uma prancha de surf ou skis. E não é uma prancha qualquer. Foi feita artesanalmente em França, com marchetaria monograma em carvalho claro e nogueira. Ideal para quem faz surf e ainda melhor para quem não faz e a quer apenas como decoração em casa… E eu, que não faço surf nem tenho intenções de o fazer, seria muito feliz com uma em casa!

E como se tudo isto não fosse, por si só, mais do que suficiente, surge o Porsche 911 Reimagined by Singer – Classic Turbo Cabriolet. Para mim, ainda mais bonito…
Cheio de classe, mais náutico e muito mais discreto… Se é que este adjectivo alguma vez poderá ser aplicado a esta parceria.
Aqui, a Louis Vuitton já não parece simplesmente adaptada ao automóvel. Sob a direcção criativa de Nicolas Ghesquière, o branco Calcaire Lutétien, a madeira, a pele natural, o dourado e as referências aos clássicos barcos a motor criam um universo muito mais subtil.
A própria cor, Calcaire Lutétien white, é uma referência ao calcário branco que caracteriza a arquitectura parisiense e, especificamente, a paisagem em torno da sede histórica da Louis Vuitton no Pont Neuf.
A madeira deixa de ser apenas um acabamento e passa a fazer parte do conceito… surge atrás dos bancos, na bagageira, no compartimento do motor, numa linguagem que nos leva directamente aos decks dos barcos clássicos.
Abre-se o carro e a linguagem continua… abre-se a bagageira e continua… abre-se o compartimento do motor e continua. E é exactamente isso que acontece num bom projecto de interiores.
E a caixa de velocidades… M A R A V I L H O S A!!! Uma Noé, mas em vez de sair uma garrafa de champagne, sai a alavanca das mudanças. Se isto não é simplesmente incrível, não sei o que será!

E depois aparece o designer de interiores Thái Công, amante assumido da Porsche e da Louis Vuitton, e faz uma pergunta que me baralha… E se tirarmos o logo, o que fica?
Questiono-me se o faz por provocação ou se não viu os carros. Claro que uma parceria não é só colocar um logo e mudar cores, mas Thái Công é amante da Louis Vuitton e aposto que conhece cada pormenor por trás da marca, que consegue perceber a ironia do manípulo da caixa de velocidade a sair do que parece ser uma Noé e todos estes pormenores… então porque raio faz esta pergunta?!?
Se tirarmos o logo, fica ainda melhor… ficam precisamente os pormenores que fazem desta parceria muito mais do que a aplicação de um logo num Porsche. Ficam aqueles pormenores que os entendedores entenderão. Fica a cor, que ele defende que não deveria ser outra que não a paleta de cores Porsche, como se não fosse possível uma colaboração acrescentar uma nova cor à história de uma marca. Ficam os pneus e os pára-brisas azuis. Fica a pele e a técnica de a trabalhar. Fica o malletage. Ficam as flores transformadas em respiradores, os metais trabalhados quase como peças de relojoaria, os puxadores tratados com técnicas vindas da marroquinaria e toda a linguagem do Tambour transportada para o automóvel. E fica o segundo carro… Fica uma caixa de velocidades Noé. Ficam as madeiras trabalhadas com uma linguagem náutica, as correias em pele, a escolha dos materiais, os acabamentos e toda uma forma de pensar o automóvel que não precisa de um monograma para existir… e fica a minha indignação com esta pergunta! Porque é isto que faz uma colaboração conjunta. Não é colocar o logo de uma marca no produto da outra, mas usar o savoir-faire de cada uma delas para criar um produto único.
Se retirarmos o logo, fica o mais importante. Fica o projecto.
E este projecto é genial. Tem consistência muito para além daquilo que, à primeira vista, pode parecer óbvio e, sobretudo, muito para além do logo. E é isso que me faz querer voar para a Califórnia ainda hoje para ver de perto o resultado desta parceria.
Preciso muito destes carros na minha vida porque, embora o meu coração bata mais forte pelo Cabriolet, não viria mal ao mundo ter o 911 Classic como amante… Afinal, um não invalida o outro e, se tivesse de escolher só um… escolheria os dois. A Porsche teria de me compreender e a Igreja absolver.
Porque há parcerias e parcerias, e esta é enorme… nunca a expressão à grande e à francesa assentou tão bem!
