Sempre que volto a Marrakesh confirmo aquilo em que acredito há muitos anos… os espaços que nos ficam na memória são aqueles que contam uma história.
Quando percorro estes espaços, fico sempre com a sensação de que cada escolha teve um propósito, como se nada tivesse sido escolhido apenas porque era bonito. Há uma personalidade que atravessa tudo… os jardins, os pátios, as portas antigas, os candeeiros, os tecidos, as paredes marcadas pelo tempo. Tudo parece fazer parte da mesma história e é precisamente isso que torna estes interiores tão extraordinários.
Depois há a cor. Os vermelhos intensos, os terracotas que equilibram o conjunto, os rosas que conseguem intensificar umas cores e suavizar outras ao mesmo tempo, os verdes profundos, os azuis marcantes… uma verdadeira montanha-russa de cor. E, curiosamente, nada cansa. Pelo contrário, tudo parece encontrar naturalmente o seu lugar.
Depois começam a aparecer os materiais… a madeira trabalhada à mão, os azulejos tipicamente marroquinos, os estuques, o linho, os veludos, os mármores, os metais. Peças antigas convivem com outras absolutamente inesperadas e aquilo que, no papel, talvez nunca resultasse, ali parece fazer todo o sentido. À primeira vista pode até parecer caótico… mas basta parar um instante para perceber porque existe uma coerência invisível que une tudo.
Quero com isto dizer que não gosto de espaços clean, depurados ou minimalistas? Não. Gosto
bastante, mas não me marcam. São bonitos, por vezes até necessários, e acho sinceramente que fazem todo o sentido em determinadas fases da vida. Há pessoas que chegam a casa ao fim de um dia intenso e só precisam de silêncio, de pouco estímulo, de poucos objetos… de respirar. E até defendo que uma primeira casa pode, e deve, muito bem ser assim.
Para mim, a primeira casa é quase uma tela em branco, onde começamos a escrever a nossa história. Mas é com o tempo que essa história ganha verdade e identidade.
É na segunda casa que já traz algumas peças da primeira, na terceira, que guarda memórias das anteriores, ou simplesmente na mesma casa, que vai mudando connosco ao longo dos anos.
Quem entra já não vê apenas um sofá, uma mesa ou um candeeiro… começa a perceber quem somos, o que nos emociona, por onde viajámos, aquilo que decidimos guardar e, sobretudo, aquilo que nunca tivemos coragem de deitar fora porque faz parte da nossa história.
Talvez seja por isso que nunca volto de Marrakesh apenas com fotografias. Volto sempre com uma nova forma de olhar para os espaços… e com a certeza de que é essa personalidade que continuo a procurar em Paris, num hotel, num restaurante ou em cada que projeto que projeto
