Se ainda existiam dúvidas de que o papel de parede voltou a ser um verdadeiro revestimento, a Casa Decor dissipou-as completamente.
Este ano era praticamente impossível entrar num espaço sem encontrar paredes revestidas. E, em muitos casos, até os tetos… a quinta parede que muitos esquecem.
Nos últimos vinte anos voltou a ter uma evolução enorme e hoje falamos de texturas, de volumes, de materiais que quase nos obrigam a estender a mão para perceber se estamos perante um tecido ou um papel.
Curiosamente, comecei a trabalhar precisamente quando o papel de parede começava a regressar. Durante cerca de trinta anos tinha praticamente desaparecido das casas. Continuava demasiado associado às paredes pesadas dos anos 70 e início dos anos 80 e havia um enorme receio de voltar a colocá-lo e de as casas voltarem a ficar demasiado pesadas, mas não eram os papéis que as tornavam pesadas… era todo o conjunto. Os papéis eram só mais um elemento que se adicionava e, por isso, nada respirava.
Recordo-me perfeitamente dos primeiros papéis que comecei a utilizar. Tinham padrões enormes, muito clássicos, com florões, mas as marcas começaram a reinterpretá-los de uma forma completamente diferente. A Designers Guild foi uma das que mais me marcou nessa altura. Pegava em desenhos clássicos e colocava-os em turquesas, azuis claros, laranjas e verdes alface. Continuavam a ser clássicos… mas eram leves e acima de tudo traziam alegria às casas. E isso fazia toda a diferença.
Mesmo assim, durante muitos anos os clientes pediam sempre a mesma coisa.
Vamos colocar apenas numa parede. As pessoas tinham medo de se cansarem, medo de voltar às casas pesadas do passado e a verdade é que esse receio ainda existe. Menos do que antigamente, mas continua a aparecer.
Hoje já se aceitam papéis em quartos, salas, halls e casas de banho sociais com muito mais naturalidade. Nas cozinhas ainda existe alguma resistência, embora nas zonas de refeições mudem completamente a atmosfera do espaço. E talvez seja precisamente essa a palavra… atmosfera. Porque um papel de parede não serve apenas para decorar… muda a forma como sentimos uma divisão.
Foi exatamente isso que voltei a confirmar na Casa Decor.
Enquanto percorria as diferentes divisões dei por mim a pensar como tudo tinha mudado. Longe iam os tempos em que o papel aparecia timidamente numa única parede. Aqui era exatamente o contrário… havia papéis de parede em todos os espaços, mas quase nenhum era apenas um papel bonito, eram verdadeiros revestimentos com texturas profundas e volumes.
Superfícies que imitavam linho, bouclé e outros tecidos com uma qualidade absolutamente
impressionante… houve um, da Casamance, que me obrigou a fazer aquilo que faço sempre que uma textura me intriga… tocar-lhe. Precisava de perceber se era tecido ou papel, mas fiquei igual! Estava tão bem conseguido… parecia mesmo tecido… tive de perguntar.
Era incrível e isso diz muito da evolução que este material teve nos últimos anos.
A Arte e a Élitis continuam, para mim, a ser duas das grandes referências nesta área, ano após ano conseguem surpreender, não apenas pelos desenhos, mas sobretudo pela forma como trabalham a matéria, mas depois da Casa Decor a Casamance ficou definitivamente debaixo de olho… tenho de a explorar melhor.
Confesso que estranhei não encontrar na Casa Decor um papel em linho bordado da Arte que saiu este ano e que amo de paixão, é exatamente o tipo de revestimento que imagino nestas mostras… e continuo à espera da oportunidade certa para o aplicar numa parede de um quarto.
Depois de mais de vinte e cinco anos a trabalhar nesta área, há uma coisa em que continuo a acreditar. O papel de parede é daquelas escolhas que não têm volta, depois de se experimentar, nunca mais se consegue voltar atrás. É impossível viver num espaço revestido a papel e depois regressar a paredes simplesmente pintadas… parece que o gelo se instala!
Uma parede pintada até pode ter cor, mas um papel de parede… tem presença!
Mesmo quando queremos apenas cor, um papel alinhado ou em seda cria uma profundidade e um conforto que a tinta dificilmente consegue alcançar.
É uma sensação difícil de explicar, mas sente-se… e bem!
Talvez por isso nunca tenha tido dúvidas quando desenhei o Gabinete de Curadoria. Queria um espaço acolhedor, sem aquele aspeto impessoal que a maioria das lojas tem. Por isso nunca tive dúvidas de que queria forrar todas as paredes a papel de parede… sabia que aquele conforto que procurava não se conseguia apenas com mobiliário, precisava de revestir as paredes.
Lembro-me de aplicar papel de parede num escritório há alguns anos e receber um telefonema no dia seguinte. Nunca imaginei que o papel de parede pudesse fazer tanta diferença. Sorri… porque é exatamente isso que acontece.
Podemos explicar texturas, padrões, materiais ou técnicas de impressão, mas há coisas que só se percebem quando se entra num espaço… o conforto criado por um papel de parede é uma delas!
