Todas as peças que entram no Gabinete de Curadoria chegam com um único objetivo… encontrar uma nova casa. Afinal, isto é um negócio. Mas, de vez em quando, aparece uma peça que complica tudo.

Este crocodilo foi uma delas. Vi-o pela primeira vez em setembro, numa feira de decoração.
Na altura apaixonei-me por ele, mas não fazia sentido comprá-lo. Ainda estava a pensar na loja do Ribatejo  e um crocodilo em ferro não tinha propriamente lugar naquele espaço.

Meses depois, quando comecei a desenhar o Gabinete de Curadoria, lembrei-me imediatamente dele.
Ali, sim… fazia todo o sentido. Encomendei-o assim que abri o espaço e, durante quase três meses, fez-me companhia todos os dias. E quanto mais tempo passava… mais difícil se tornava imaginá-lo noutra casa. Cheguei ao ponto de medir a mesa de centro da minha sala. Queria perceber se cabia exatamente no sítio onde o imaginava. Na minha cabeça já estava decidido. Quando mudar para a casa nova… o crocodilo vai comigo!

O mais engraçado era ver a reação das crianças que passavam à porta do Gabinete de Curadoria. Olhavam à volta e, quase sem exceção, diziam sempre a mesma coisa… Olha… um crocodilo!

E eu sorria… acho que gostavam tanto dele como eu.

Algumas peças conseguem criar uma ligação imediata, talvez porque sejam tão eu, talvez façam tão parte da minha essência, que é difícil não me afeiçoar a elas. A verdade é que há objetos que deixam rapidamente de ser apenas objetos… passam a fazer parte da nossa rotina.
E é precisamente aí que a profissão fica mais difícil. Porque todas as peças chegam aqui para serem vendidas. Mas há algumas que são tão próximas daquilo que eu gosto, tão próximas da minha forma de viver uma casa, que é impossível não me afeiçoar a elas. Este crocodilo foi uma dessas peças.

O crocodilo grande encontrou uma nova casa. Ficou o pequeno. Continua a haver um crocodilo à porta… mas não é a mesma coisa. Para mim, não tem a mesma beleza… será que as crianças que passam por aqui vão perceber a diferença?