Saiu a nova coleção de sardinhas da Bordallo Pinheiro e, com ela, voltou um dos eventos de que mais gosto no início do verão… a mítica sardinhada.

 

Não consigo precisar ao certo quando comecei a ir. Talvez em 2015… 2016 ou 2017. A verdade é que já perdi a conta às edições e há uma tradição que nunca falha… todos os anos volto para casa com mais algumas sardinhas.

Pode parecer estranho para quem nunca foi, mas as sardinhas que fazem parte da decoração das mesas são para levar. São peças com pequenos defeitos que nunca chegariam às lojas e, em vez de acabarem no lixo, encontram uma nova casa. Acho a ideia maravilhosa.
O problema é que quase ninguém sabe disso.
Todos os anos acontece exatamente a mesma coisa. Olho para as sardinhas espalhadas pelas mesas, espero que ninguém lhes pegue primeiro e, ao mesmo tempo…  tenho vergonha de as pôr na mala. Quem não conhece a tradição fica inevitavelmente a olhar para mim, como se tivesse acabado de roubar uma sardinha do centro de mesa… como se fosse mesmo um crime.
E a verdade é que, desde que descobri que era suposto levá-las, deixei de aparecer com malas pequenas de mão. Passei a levar uma mala normal do dia a dia… afinal nunca sei quantas sardinhas vão querer vir comigo para casa.

É também um daqueles eventos onde reencontro sempre algumas pessoas. A Rita Feio, a Leonor Seixas, o Sardinha… que, convenhamos, não podia faltar com um apelido destes.
Tenho um carinho especial pela Rita Feio. Conheci-a quando ainda era pequena. Na altura ainda nem fazia ideia do que queria ser quando crescesse, quanto mais imaginar que um dia nos iríamos cruzar todos os anos num evento da Bordallo.
Nessa altura, para mim, a Bordallo era apenas uma recordação da casa de fim de semana dos meus avós, em Alcobaça. As taças em forma de couve, o tomate gigante… faziam parte da casa, como tantas outras coisas que, quando somos crianças, achamos que sempre existiram e serviam apenas para nos fazer rir à hora das refeições,  quando a minha avó virava costas, por as acharmos tão despropositadas.

Este ano chegaram doze sardinhas novas, assinadas por artistas portugueses e internacionais. Há sardinhas japonesas, sardinhas com gatos, baleias de barriga cheia de sardinhas… há um pouco de tudo. Talvez seja precisamente por isso que nunca me canso de ver sardinhas novas. A sardinha é sempre a mesma… mas cada artista olha para ela de uma forma completamente diferente.

Gostei particularmente da Calçada, do Francisco Menezes. E fiquei completamente rendida à Entrelaçados, da Diana Silva… não porque a ache a mais bonita da coleção, porque não acho… mas porque tem gatos e eu tenho gatos.
No final oferecem sempre duas sardinhas a cada convidado. Este ano calharam-me a Fábulas e a Saudade Salgada. Ainda estou a pensar se fico com as duas ou se troco uma delas pela Precious Sardine… ou então deixo-me de trocas e, para o ano, tenho mais uma para roubar, é sempre mais giro quando vou com alguma em mente.

Enquanto toda a atenção estava nas sardinhas novas, dei por mim parada, mais uma vez, em frente à jarra dos sapos. Tive-a durante anos na quinta e continuo a achá-la lindíssima. E os limões… um dia vou acabar essa coleção.

Foi provavelmente o ano em que estive menos tempo na sardinhada. Passei metade do tempo a olhar para o relógio, convencida de que o carro já estaria a ser rebocado algures nas ruas do Castelo. Hoje percebo que, naquela subida, provavelmente nem o reboque chegava lá… ainda assim, isso não me impediu de trazer várias sardinhas.
Quando cheguei ao jantar de família entreguei ao meu pai uma sardinha com uma guitarra de fado… que roubei propositadamente para ele. Claro que quiseram logo ver as outras… e fiquei imediatamente sem mais três. Para o ano já sei… Levo uma mala maior!

Ao longo destes anos fui juntando tantas sardinhas que, ao sair do evento, digo sempre a mesma coisa… um dia vou fazer um quadro com todas elas para colocar à entrada de casa.
Segundo o Feng Shui, se queremos prosperidade devemos colocar um cardume de peixes como se estivessem a entrar pela porta. E sardinhas também são peixes… e eu já tenho um cardume inteiro.