Se o rooftop me conquistou, a loja então nem se fala.

Já lá tinha entrado em 2022 e voltei em 2024, mas em 2026 entrei com um olhar completamente diferente e não foi por acaso. Já existia o Gabinete de Curadoria, e isso mudou tudo.
Já não entrei apenas como alguém que visita lojas por curiosidade, para ver o que têm e o que se pode comprar. Entrei a pensar, O que é que posso aprender aqui?

Esta não é a típica loja de hotel, é a loja do El Fenn, onde tudo tem identidade própria, embora seja um verdadeiro cruzamento de influências do mundo.
Há moda de estilistas marroquinos, mobiliário, livros, objetos, arte… tudo cuidadosamente escolhido para continuar a contar a mesma história. É uma mistura difícil de explicar. É como se o El Fenn tivesse viajado pelo mundo inteiro e regressado a casa trazendo um pouco de cada lugar por onde passou, ou talvez seja exatamente o contrário… ou melhor, como se tivesse tido um filho com o mundo. E, estranhamente, tudo faz sentido. É tudo muito… muita cor, muita textura, muita informação. Muito El Fenn.

Foi aí que percebi aquilo que provavelmente a Rita de 2022 nunca teria visto. Da primeira vez entrei numa loja com peças giras, desta vez comecei a olhar para a profundidade da curadoria.

Vi peças tipicamente marroquinas, mas reinterpretadas. Peças com os mesmos materiais que encontramos na Medina, mas trabalhados de uma forma diferente. Tamboretes de riscas em resina, com uma forma cilíndrica que vai até ao chão e aplicações em bronze no topo. São peças que existem em Marrocos, mas sempre com um pequeno detalhe que lhes dá uma assinatura muito própria.
Não é o objeto que faz a diferença, é o detalhe, a forma como tudo conversa entre si. É essa coerência que faz com que, por mais influências que existam, tudo continue a ser El Fenn. E, por momentos, até pensei que talvez a loja tivesse evoluído nestes anos. Mas, olhando melhor, talvez quem tenha mudado tenha sido eu… ou melhor, a minha forma de olhar.

Há objetos que ficam na memória. No El Fenn foram vários, mas dois deles preciso mesmo que façam parte da minha vida… os pratos e os tamboretes.
Os pratos acompanharam-me durante todo o jantar, dispostos ao longo da parede, repetiam-se como se formassem um enorme quadro. Todos diferentes, todos marroquinos e, ainda assim, todos nos mesmos tons de branco e encarnado. Passei grande parte da noite a olhar para eles e, claro, a fotografá-los… de todos os ângulos possíveis.

Tinha a certeza de que os ia encontrar nas lojas da Medina, mas não apareceu um único. Ainda hoje tenho esperança de que tenha sido apenas porque muitas lojas estavam fechadas durante os feriados e tenho para mim que alguns são feitos exclusivamente para o El Fenn.
Depois há os tamboretes, são irresistíveis, daqueles objetos que sabemos que, se não os trouxermos naquele momento, vamos passar meses a pensar neles. Foi exatamente isso que me aconteceu… aqui sentada a escrever e, embora já tenha encontrado solução, ainda a pensar neles!
Uma amiga ficou encarregue de me ajudar a trazê-los e, quem sabe, talvez um dia também cheguem ao Gabinete de Curadoria.

Há objetos que ficam na memória. Outros não nos largam enquanto não encontram caminho até casa. No fundo sei que não é apenas pelas peças em si, mas pelo que representam na minha memória. São a forma de trazer um pouco do El Fenn para casa e de reviver, todos os dias, aquele misto de sensações que a loja continua a provocar em mim. E talvez seja isso que distingue uma boa curadoria… faz-nos querer levar um pouco daquele universo connosco.